A arquitetura vai muito além de pensamentos sobre forma do objeto arquitetônico e sua função. Ao meu ver, a arquitetura está em todo o pensamento que se coloca sobre o espaço, toda discussão sobre o que construído e ocupado e também o que não é, sobre todo o sistema de espaços livres. O trabalho aborda questões e formas de pensar que fujam de uma lógica simples e estritamente racionalista de pensar o espaço da cidade.
Uma pesquisa crítica e multidisciplinar possibilitou abarcar a complexidade de um território específico em transformação – A região Portuária da Cidade do Rio de Janeiro. Ampliando o campo de reflexão para além da arquitetura e urbanismo, o trabalho se utiliza de ideias de outros universos como a arte, a literatura, o cinema e a filosofia.
É essa construção de um pensamento multidisciplinar que nos dá a ver a riqueza de potencialidades (e não apenas evidencia problemas), e as diferentes visões sobre um mesmo território.
Durante cinco anos de graduação, enquanto me deslocava da cidade de São Gonçalo para a cidade do Rio de Janeiro, a Região Portuária foi meu caminho, foi meu espaço de passagem e muitas vezes permanência. Um espaço que durante esses cinco anos foi completamente alterado. Foram diversas as construções que surgiram a cada dia, diversas as rotas que eram alteradas a cada semana, por conta de cada canteiro de obras que surgia. Tudo isso por conta do projeto de um território que foi montado sobre diversos discursos, sobre diversas promessas, com diversas expectativas.
Após todo esse tempo, o que se cumpriu? O que irá ainda se cumprir? O que foi deixado de lado?
Apesar dessas perguntas estarem postas aqui, é quase impossível responde-las. Esse território está num momento de transição, entre o que está construído, o que será construído, o que será ocupado, enquanto o território é preparado.
Mas para quem ele está sendo preparado?
As alterações nesse território aconteceram através da construção de camadas que se sobrepuseram e que continuam se sobrepondo, na maioria das vezes de forma autoritária. Essa foi a maneira como esse espaço da cidade foi construído, com o apagamento de memórias, as construções de revitalização, as imposições de espaço.
Esse trabalho/pesquisa não se resume a um recorte específico dentro da região portuária em questão, mas é antes de mais nada um exercício de compreensão de todas as nuances que existem ali, todas as complexidades que se colocam sobre esse território que foi ocupado, construído, ampliado, esgarçado, recortado, e se pretende uma nova coisa a cada revitalização.
Como está, afinal, esse território?
São muitas as possibilidades e impossibilidades que existem na região portuária. Hoje o que se percebe são diversas intenções que foram deixadas pelo caminho, que aguardam o fim de uma recessão para que a retomada da ocupação aconteça de forma efetiva. São diversas novas construções que permanecem vazias, desocupadas, no aguardo de uma nova maneira de ocupar esse território. Ao mesmo tempo, essa ocupação desconsidera pontos importantes na formação dessa região, desconsidera vivencias de pessoas que já moram, ocupam e vivem nesse espaço há muito tempo. Desconsidera memórias que remetem aos primeiros momentos de ocupação da cidade. Desocupações e demolições foram feitas, “descobertas” do passado de crueldade com a população negra, e tudo isso muitas vezes só é reacendido de maneira contemplativa, sem que exista uma reflexão real sobre os acontecimentos.